Famílias comprometem 29% da renda com dívidas, maior patamar em 20 anos

Com o desemprego no menor nível da série histórica e a inflação sob controle até agora, é o endividamento das famílias brasileiras que acende o sinal de alerta nas instituições financeiras e varejistas –e até na disputa eleitoral.
As famílias brasileiras direcionam 29% dos seus ganhos para quitar compromissos financeiros desde outubro do ano passado, o maior percentual em pelo menos 20 anos, segundo dados do Banco Central. Desse total, 10,38% é referente apenas ao pagamento de juros, e 18,81% para honrar o principal.
Atoladas em boletos a pagar, mais pessoas estão deixando de quitar suas contas. A inadimplência dos consumidores atingiu 6,9% entre o final do ano passado e janeiro deste ano, bem acima dos 5,6% registrados há um ano.
Modalidades mais arriscadas de crédito vêm endividando em especial a baixa renda, segundo especialistas. São empréstimos com juros mais elevados e que vêm apresentando uma expansão acelerada a despeito da alta taxa Selic, em 14,75% ao ano.
O calote das pessoas físicas no total de empréstimos que exclui crédito rural e imobiliário é liderado principalmente pelo rotativo do cartão (com inadimplência de 63,5% em janeiro), cheque especial (16,5%) e cartão parcelado (13%).
O total emprestado no rotativo, que tem taxa de 14,81% ao mês, saltou 31,2% entre janeiro de 2025 e o mesmo período deste ano. O do parcelado (taxa de 9,43% ao mês) teve alta de 18,3%, enquanto o cheque especial (juros mensais de 7,52%) avançou 13,8% na mesma comparação. Na média, o crédito com recursos livres subiu 12,4% no período.
O valor total cobrado de juros e encargos financeiros no rotativo e no parcelamento da fatura do cartão não pode ultrapassar 100% do valor da dívida principal, segundo regra do Banco Central. Assim, uma dívida de R$ 100 que não é quitada, por exemplo, está limitada a R$ 200 após incidência dos juros e dos encargos por atraso.
“Há um crescimento maior do que a média nas operações de crédito de maior risco. Com isso, se nota uma mudança na composição da carteira de crédito total, o que pesa na inadimplência”, explica Everton Gonçalves, diretor de economia, regulação e produtos da ABBC (Associação Brasileira de Bancos).
Os mais pobres, que são os que mais acessam essas linhas emergenciais e mais caras de crédito, são os que mais sofrem com as altas taxas.
Fonte: Folha de S. Paulo
